Obviamente que não!
Para os menos
atentos, o termo “Grexit” surge na imprensa especializada, oriundo
possivelmente dos corredores de decisão europeus, de forma a, em uma palavra
apenas, dar significado à possível saída dos Gregos da União Europeia. Não sei
ao certo quando surge, mas tomei conhecimento do termo algumas semanas antes
das eleições helénicas. Passa a surgir mais intensamente quando as últimas
sondagens apontam para a vitória da tão anunciada “esquerda radical” grega, o
Syriza. Foi então que, um pouco por toda a zona euro, foram surgindo pressões
sobre os gregos, alertando para os perigos da escolha de um partido dos não
tradicionais. Mesmo após a eleição do governo, o ministro das finanças alemão,
certamente concertado com a líder do seu país, afirmava que era uma
irresponsabilidade a escolha partidária do povo grego nas últimas eleições.
Chegados aqui,
percebemos que a democracia europeia se encontra minada por dentro, e que os
valores que serviram para a construção dos seus alicerces se encontram vergados
à ideologia económico-financeira e à hegemonia de determinados países em
detrimento de outros. Passamos também a reparar que cada vez é mais
notória a tentativa de líderes desses mesmos países passarem por cima daqueles
que, eleitos pelos seus cidadãos, procuram encontrar pontes de entendimento de
forma a melhorar a qualidade de vida no seu país, procurando conciliar o
equilíbrio das contas públicas.
Recordando o início
da crise europeia, os gregos, liderados pelo partido socialista (Pasok),
anunciaram um acordo com o FMI e a UE para um plano de resgate no valor de 110
mil milhões de euros em troca de 30 mil milhões de euros de cortes extra no
orçamento. A isto seguiu-se um conjunto de medidas que, como em Portugal,
visava sobretudo funcionários públicos e a degradação do estado social. Já em
2011, após sucessivos cortes de subsídios, salários e estrutura do estado
social, a 31 de outubro, o primeiro-ministro anunciou a intenção de referendar
a ajuda europeia. No entanto, pressões externas (como as do primeiro-ministro
francês e da chanceler alemã) e internas (nomeadamente do então ministro das
finanças Evangelos Venizelos) levaram a que a proposta fosse abandonada.
Tudo isto levou a um
descontentamento muito grande, por parte do povo grego, com o rumo do país. O
drama social intensifica-se com os cidadãos a serem despojados dos seus
direitos fundamentais. Dados lançados pelo jornal “Publico” (09.03.15)
alertam-nos para o aumento da taxa de suicídio de 43%; o desemprego atinge
25,8%, sendo de 50% nos jovens; a percentagem de cidadãos gregos em risco de pobreza
é já de 35,7%. A isto somam-se medidas tomadas durante o período de austeridade
que levou a que, terminado o período do subsídio de desemprego (um ano),
chegasse também a caducidade de acesso a serviços públicos por parte desses
mesmos cidadãos.
A Grécia é, para mim,
neste momento, um barril de pólvora que observa, incrédula, países europeus,
mesmo aqueles que se encontravam/encontram em situação semelhante, virar as
costas, não apenas ao país, mas ao projecto europeu assente na manutenção da
paz, solidariedade e desenvolvimento partilhado.
Em Portugal, o
discurso do bom aluno ajudava à afirmação do ideal “nós não somos a Grécia”,
repetido até à exaustão por altos cargos do Estado. A isto, junta-se mais
recentemente o “conto de crianças” por forma a desacreditar esta nova forma de
fazer politica, mantendo a ideia do “não existe outro caminho,” que o brilhante
bom aluno vai apregoando. Ser bom aluno implica mais do que fazer tudo que lhe
mandam, quando mandam. Não implica total anuência em relação a directrizes
alheias, e a consequente falta de voz activa e massa critica nos destinos
nacionais e europeus. Ser bom aluno deveria implicar a procura constante de
melhores condições, não apenas para o próprio, mas para os próximos. Deveria
implicar não atacar aqueles que se encontram numa posição mais frágil para
evitar chegar à mesma posição. Infelizmente, não foi essa a escolha de quem nos
representa!
E eis que chegamos à
Grécia do presente. Aquela que me faz escrever sem qualquer dúvida “NÓS TAMBÉM
SOMOS A GRÉCIA”. E não porque a sua política mudou radicalmente, nem porque
esse discurso pode beneficiar o nosso país. Afirmo isto porque é um dever
cívico de quem acredita na Europa e de quem acha que isto é uma questão de
justiça, solidariedade europeia e combate às hegemonias que trouxeram as
guerras ao nosso continente. Apesar de conotado como esquerda radical, foi o
governo grego quem optou por uma via negocial, com as instituições europeias a
monstrarem-se intransigentes nas posições previamente assumidas. Os próprios
dirigentes gregos conseguiram encontrar, em Portugal e Espanha, pessoas mais
“troikistas que a troika” (para não voltar a trazer os alemães para a
conversa). Isto é o demonstrar do rumo traçado para as políticas nacionais:
antes cair mantendo intactos os nossos ideais, do que reconhecer o erro e
procurar novas soluções. A incapacidade para reconhecer os próprios erros ou
reconhecer méritos alheios.
A Grécia vive um
período difícil da sua história, à qual a Europa não pode ser indiferente. Não
é apenas a questão social e humanitária; não é apenas a questão geopolítica e
as portas abertas para o conflito no Médio Oriente. Devemos estar preocupados
com a proliferação dos nacionalismos radicais, não apenas visíveis em
território grego, mas um pouco por toda a Europa. Na Grécia, a Aurora Dourada
encontrou o seu espaço para crescer e capitalizar o descontentamento geral. Se
este governo não funcionar, a próxima escolha poderá ser mesmo essa!
Para já, resta manter
a esperança de que a democracia tenha encontrado o regresso a casa. E que esse
regresso seja o ponto de partida para uma nova Grécia, e um dia para uma nova
Europa. Uma melhor Europa.
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