quinta-feira, 12 de março de 2015

"Grexit?"

Obviamente que não!
Para os menos atentos, o termo “Grexit” surge na imprensa especializada, oriundo possivelmente dos corredores de decisão europeus, de forma a, em uma palavra apenas, dar significado à possível saída dos Gregos da União Europeia. Não sei ao certo quando surge, mas tomei conhecimento do termo algumas semanas antes das eleições helénicas. Passa a surgir mais intensamente quando as últimas sondagens apontam para a vitória da tão anunciada “esquerda radical” grega, o Syriza. Foi então que, um pouco por toda a zona euro, foram surgindo pressões sobre os gregos, alertando para os perigos da escolha de um partido dos não tradicionais. Mesmo após a eleição do governo, o ministro das finanças alemão, certamente concertado com a líder do seu país, afirmava que era uma irresponsabilidade a escolha partidária do povo grego nas últimas eleições.
Chegados aqui, percebemos que a democracia europeia se encontra minada por dentro, e que os valores que serviram para a construção dos seus alicerces se encontram vergados à ideologia económico-financeira e à hegemonia de determinados países em detrimento de outros. Passamos também a reparar que  cada vez é mais notória a tentativa de líderes desses mesmos países passarem por cima daqueles que, eleitos pelos seus cidadãos, procuram encontrar pontes de entendimento de forma a melhorar a qualidade de vida no seu país, procurando conciliar o equilíbrio das contas públicas.
Recordando o início da crise europeia, os gregos, liderados pelo partido socialista (Pasok), anunciaram um acordo com o FMI e a UE para um plano de resgate no valor de 110 mil milhões de euros em troca de 30 mil milhões de euros de cortes extra no orçamento. A isto seguiu-se um conjunto de medidas que, como em Portugal, visava sobretudo funcionários públicos e a degradação do estado social. Já em 2011, após sucessivos cortes de subsídios, salários e estrutura do estado social, a 31 de outubro, o primeiro-ministro anunciou a intenção de referendar a ajuda europeia. No entanto, pressões externas (como as do primeiro-ministro francês e da chanceler alemã) e internas (nomeadamente do então ministro das finanças Evangelos Venizelos) levaram a que a proposta fosse abandonada.
Tudo isto levou a um descontentamento muito grande, por parte do povo grego, com o rumo do país. O drama social intensifica-se com os cidadãos a serem despojados dos seus direitos fundamentais. Dados lançados pelo jornal “Publico” (09.03.15) alertam-nos para o aumento da taxa de suicídio de 43%; o desemprego atinge 25,8%, sendo de 50% nos jovens; a percentagem de cidadãos gregos em risco de pobreza é já de 35,7%. A isto somam-se medidas tomadas durante o período de austeridade que levou a que, terminado o período do subsídio de desemprego (um ano), chegasse também a caducidade de acesso a serviços públicos por parte desses mesmos cidadãos.
A Grécia é, para mim, neste momento, um barril de pólvora que observa, incrédula, países europeus, mesmo aqueles que se encontravam/encontram em situação semelhante, virar as costas, não apenas ao país, mas ao projecto europeu assente na manutenção da paz, solidariedade e desenvolvimento partilhado.
Em Portugal, o discurso do bom aluno ajudava à afirmação do ideal “nós não somos a Grécia”, repetido até à exaustão por altos cargos do Estado. A isto, junta-se mais recentemente o “conto de crianças” por forma a desacreditar esta nova forma de fazer politica, mantendo a ideia do “não existe outro caminho,” que o brilhante bom aluno vai apregoando. Ser bom aluno implica mais do que fazer tudo que lhe mandam, quando mandam. Não implica total anuência em relação a directrizes alheias, e a consequente falta de voz activa e massa critica nos destinos nacionais e europeus. Ser bom aluno deveria implicar a procura constante de melhores condições, não apenas para o próprio, mas para os próximos. Deveria implicar não atacar aqueles que se encontram numa posição mais frágil para evitar chegar à mesma posição. Infelizmente, não foi essa a escolha de quem nos representa!
E eis que chegamos à Grécia do presente. Aquela que me faz escrever sem qualquer dúvida “NÓS TAMBÉM SOMOS A GRÉCIA”. E não porque a sua política mudou radicalmente, nem porque esse discurso pode beneficiar o nosso país. Afirmo isto porque é um dever cívico de quem acredita na Europa e de quem acha que isto é uma questão de justiça, solidariedade europeia e combate às hegemonias que trouxeram as guerras ao nosso continente. Apesar de conotado como esquerda radical, foi o governo grego quem optou por uma via negocial, com as instituições europeias a monstrarem-se intransigentes nas posições previamente assumidas. Os próprios dirigentes gregos conseguiram encontrar, em Portugal e Espanha, pessoas mais “troikistas que a troika” (para não voltar a trazer os alemães para a conversa). Isto é o demonstrar do rumo traçado para as políticas nacionais: antes cair mantendo intactos os nossos ideais, do que reconhecer o erro e procurar novas soluções. A incapacidade para reconhecer os próprios erros ou reconhecer méritos alheios.
A Grécia vive um período difícil da sua história, à qual a Europa não pode ser indiferente. Não é apenas a questão social e humanitária; não é apenas a questão geopolítica e as portas abertas para o conflito no Médio Oriente. Devemos estar preocupados com a proliferação dos nacionalismos radicais, não apenas visíveis em território grego, mas um pouco por toda a Europa. Na Grécia, a Aurora Dourada encontrou o seu espaço para crescer e capitalizar o descontentamento geral. Se este governo não funcionar, a próxima escolha poderá ser mesmo essa!

Para já, resta manter a esperança de que a democracia tenha encontrado o regresso a casa. E que esse regresso seja o ponto de partida para uma nova Grécia, e um dia para uma nova Europa. Uma melhor Europa.



Sem comentários:

Enviar um comentário