O governo apresentou pela segunda vez nesta
legislatura, uma proposta de alteração à lei que regula o consumo de bebidas
alcoólicas, aumentando a idade mínima para a compra e consumo. A medida não
reúne consensos, nem mesmo dentro da maioria.
A lei é clara como a água. Elevar a idade mínima de
compra e consumo para os 18 anos de idade. Limpinho! A ideia é juntar às
bebidas espirituosas o consumo de vinho e cerveja, que é legal para maiores de
16 anos.
Dentro da comunidade científica, é consensual que o
consumo precoce aumenta o risco de dependência e a não completa maturação
neuronal, associadas a uma personalidade ainda em construção, poderão conduzir
a comportamentos de consumo impulsivo, que poderão levar a vários tipos de
complicações para o individuo, a nível social, físico e psíquico.
Existem estudos que promovem o consumo moderado destas
bebidas, nomeadamente no acompanhamento das refeições, e fazendo estes dois
produtos parte da indústria portuguesa desde há muito tempo, daí para a nossa
mesa foi como assistir a uma relação de causa-efeito. Do acompanhamento das
refeições, passando pelas sopas de cavalo cansado, foi aumentando a produção e
o consumo. Hoje, somos dos países europeus onde as bebidas alcoólicas continuam
a proliferar e em faixas etárias cada vez mais precoces, e nada fazer é
contribuir para que a esta situação se mantenha. Ou piore!
A minha posição é simples. Estando de acordo com a lei
em questão, penso que a proibição da venda e consumo de bebidas alcoólicas a
menores de 18 anos é o passo certo na tentativa de resolução deste problema.
Mas a forma de lá chegar é complexa e transcende a elaboração e promulgação de
um decreto de lei. Governar por decreto não chega, e apenas proibir resolve
muito pouco.
Segundo a comunicação social, durante o conselho de
ministros onde esta proposta de lei foi debatida, o ministro “super” Pires de
Lima, assim conhecido pela sua passagem pela principal produtora/distribuidora
de cerveja nacional, mostrava-se contra esta alteração à lei actual. Desconheço
as razões do ministro para discordar da proposta de lei, mas posso imaginar que
não queira aprovar uma lei que provavelmente irá fazer diminuir, mais ou menos
significativamente, o volume de vendas de algumas empresas da tutela do seu
ministério. Será que a expressão loby encaixa neste tipo de actuação?
Voltando à lei em questão, será que a governação
espera que após a sua aprovação, e depois de colocada em prática, o trabalho
está feito? Se assim for, o erro é grande. Tomemos como exemplo a lei do
tabaco. O governo legisla, o parlamento aprova e o presidente da república
promulga. As pessoas não querem cumprir, as leis adaptam-se às circunstâncias,
e tudo volta a ser o que era.
Na minha opinião, a solução passa por um trabalho mais
de fundo na prevenção com objectivos definidos de combate à dependência. Não
apenas para o caso das bebidas alcoólicas, mas também para outras substâncias,
como o tabaco e as drogas, sendo este processo trabalhado a partir de
diferentes ministérios, mas com uma meta em comum. Este não pode ser um
processo da exclusiva responsabilidade da justiça. Não terão aqui a saúde e a
educação um papel preponderante?
Vamos lá reflectir sobre isso. O tabaco e o álcool são
questões de saúde pública, logo a importância para o assunto do ministério de
Miguel Macedo é fácil de descortinar (não vale a pena incluir as drogas, pois
ao contrário das outras duas substâncias, o seu consumo não se encontra
legislado, pois tanto a venda como o consumo são “proibidos”). No caso da
educação, um plano de fundo mais activo na prevenção utilizando o ambiente educativo
interdisciplinar para alertar os adolescentes para os malefícios do consumo de
determinadas substâncias, os seus efeitos a nível físico e psicológico, e a
dependência aliada a uma diminuição da esperança média de vida.
Só que o consumo faz parte das liberdades de escolha
do cidadão comum, com idade acima da legalmente instituída. E estando a
informação sobre os seus efeitos a longo e médio prazo disponíveis para
consulta, cada um sabe de si. Mas será assim tão simples? Por exemplo, em
relação ao tabaco não existirá um paradoxo entre a liberdade de um individuo
fumar em espaços públicos, e um não fumador escolher não ser fumador passivo,
além da escolha de não o ser activamente? A questão dos gastos futuros com
saúde, nomeadamente nas fases mais avançadas da vida de um individuo, é também
um tema complexo, mas que deve também ser debatido.
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