O presente texto
poderia ser uma alusão ao conto de Charles Lutwidge Dogson (pseud. Lewis
Carrol) Alice no país das maravilhas, onde a pequena Alice é “… transportada
para um lugar fantástico povoado de criaturas peculiares e antropomórficas,
revelando uma lógica do absurdo característica dos sonhos…”. Embora durante o
texto, o absurdo e o antropomorfismo estejam presentes, não é sobre Alice que
vou falar. Poderia também ser uma alusão à classificação de determinados
monumentos do país, a maravilhas arquitectónicas ou à elevação de certas
iguarias a maravilhas gastronómicas que servem para acentuar a cultura
portuguesa na arte de construir ou bem receber quem nos visita. Também não,
embora esteja mais próximo do real objectivo deste texto. Portugal como país
das maravilhas.
De que serve então
utilizar o conto infantil do escritor britânico e a classificação das sete
maravilhas arquitectónicas ou gastronómicas neste texto, se não é sobre elas
que me vou debruçar? A resposta é simples. Utilizar a analogia para demonstrar
situações, no mínimo caricatas, que acontecem na sociedade portuguesa, como as
que se passam no mundo de Alice, e que existem na cultura portuguesa maravilhas
que merecem ser demonstradas e ampliadas sob este clima de depressão
generalizada em que vivemos.
“Antropomorfismo,
sistema que considera a divindade apenas a seres de poderes e atributos
superiores”.
Existem nas
organizações da administração pública (e não só) pessoas que se devem
considerar antropomorfas ou funcionários públicos de primeira, uma vez que, a
juntar ao seu salário, recebem um conjunto de complementos salariais para
desempenhar as suas funções. Mas são apenas alguns. Ao invés, outros
funcionários, da mesma administração pública, são deslocados para fora da sua
área de residência, sem que por isso o seu salário sofra qualquer tipo de
complemento. Contudo, estes tipos de situações multiplicam-se no nosso país e
ultrapassam a simples condição salarial.
Ao pensar sobre
aquelas que são as funções sociais de um estado democrático de direito,
descortinamos um conjunto dessas situações iniquas e absurdas.
Comecemos pela
justiça, tema muito en vogue nos últimos tempos, fruto da
prescrição de casos mediáticos. Temos uma noção de (in)justiça que, por norma,
é lenta nas instâncias do tribunal e rápida a julgar, mas não nas instâncias
adequadas. Esta é uma relação que deveria ser proporcionalmente inversa: mais
célere nos tribunais e mais temperada na praça pública, mas este é um fenómeno
que pode estar relacionado com a morosidade e consequente prescrição de casos
ligados a figuras mediáticas. Utilizando as palavras de Pedro Santos Guerreiro
(jornal Expresso), “… quando os tribunais não absolvem nem condenam, é a
sociedade que fica desamparada…”
De forma a não me
alongar demasiado em cada um dos temas, passo da justiça para a educação, onde
as desigualdades se acentuam fruto da crise financeira em que vivemos, mas
também do pensamento ideológico de que o sector privado consegue melhores
resultados do que o sector público.
Primeiro ponto: a
escola pública tem a obrigação de ensinar todos. Não há escolha de alunos,
tendo o dever e a obrigação constitucional de proporcionar a todos os cidadãos
uma educação de qualidade e digna do regime democrático em que vivemos. Neste
40 anos de democracia, a escola pública portuguesa evoluiu quer quantitativa
quer qualitativamente. Não é perfeita. Mas algo tão complexo como um sistema de
ensino global de qualidade não se faz num dia e dá trabalho. Dito isto, creio,
o cheque ensino constitui uma das maiores falácias do ministério da educação no
que à igualdade de direitos e acesso ao ensino diz respeito. Caso a medida
avance, não irá propiciar as igualdades desejadas, pois as escolas privadas
continuarão a escolher os seus alunos com base nos critérios que desejarem e as
escolas públicas (que continuarem a existir) terão o dever de aceitar todos os
alunos. Sendo os serviços de acção social os responsáveis pela escolha de aluno
com direito ao cheque ensino, essa escolha continuará a esbarrar na perspectiva
nomotética adoptada por esse mesmo sistema, baseada na comparação estatística
de alunos com especificidades diferentes.
Na saúde, temos
talvez o ministro mais competente do actual governo. Embora não se possa pôr um
preço na vida Humana, a reorganização de todo o sistema de saúde e a tentativa
de o equilibrar financeiramente era um “mal” necessário para que possa ser
eficiente. Não é perfeito. A prioridade para este sistema deveria ser o da
prevenção e educação para a saúde. Um trabalho de fundo que deve preparar a
sociedade para adoptar estilos de vida mais saudáveis e equilibrados bem como o
seu impacto na vida diária de cada um, fornecendo aos cidadãos informações
sobre essas práticas no dia-a-dia. A promoção da saúde mental, e o
acompanhamento terapêutico em Psicologia deveria ser introduzido no
sistema de saúde do nosso país, especialmente numa fase de
graves constrangimentos financeiros e a degradação da qualidade de
vida.
Finalmente, em
relação ao Estado-providência, coabitamos num sistema de relação directa entre
o que quantitativamente se descontou e o que se vai receber no futuro. Pode
parecer uma forma justa de redistribuição dos descontos mas sou de opinião que
não é. Existe nas sociedades modernas uma enorme discrepância remuneratória
entre diferentes profissões. Isto é justo, tendo em conta um conjunto de
factores como a responsabilidade inerente à função desempenhada, o nível de
formação para a desempenhar, entre outros. Mas será justa uma discrepância tão
grande? Mais importante ainda, será justa uma redistribuição dos descontos com
base no salário da vida activa de cada um, ou faria mais sentido equilibrar o
sistema, actualizando as pensões e reformas com base nos anos de descontos de
cada um? Não serão as pessoas com salários mais elevados as que tiveram a
oportunidade de ter maior qualidade de vida? Não estaríamos assim a contribuir
para que as pessoas que durante anos receberam salários tão baixos,
desempenhando tarefas mecanicistas, pudessem mais tarde beneficiar de uma
“velhice” mais digna? Ou pelo contrário, devem continuar a receber uma reforma
tão baixa, que só não os atira para o limiar da pobreza, porque já lá estiveram
grande parte das suas vidas, para não dizer a vida toda? Poderíamos estar assim
a contribuir para o tão falado equilíbrio das contas públicas, no que à Caixa
Geral de Aposentações e Segurança Social diz respeito, com medidas que teriam
em conta a solidariedade entre gerações, reformados e trabalhadores no activo e
entre trabalhadores dos vários sectores presentes no nosso país.
São assuntos que dão
que pensar, e sobre os quais não podemos continuar a enterrar a cabeça na areia
ou a assobiar para o lado. Não podemos continuar a pedir solidariedade europeia
quando nem dentro do nosso país a conseguimos implantar.
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