Para a Belinha, que apesar de nunca ter sido minha professora me ensina bastante.
Falar de educação é transcender a simples relação de
causalidade entre ensino e aprendizagem. Neste processo, desenvolvimento e
pedagogia assumem um papel importante e complementar na criação de projectos
educativos que tenham em consideração as especificidades dos territórios em que
são implementados. A “escola” é um dos mais importantes meios no
desenvolvimento de uma determinada sociedade pelo papel que desempenha na
formação dos seus cidadãos. Mas a educação não começa e termina dentro do
espaço físico escolar, é um processo que se inicia antes e continua depois do
mesmo. Para se tratar este assunto com a seriedade que se impõe, é imperativo
ter assimilado um conjunto de conceitos e a sua definição.
Comecemos com educação. A “educação engloba os
processos de aprender e ensinar. É um fenómeno observado em qualquer sociedade
e nos grupos constitutivos desta, responsável pela manutenção e perpetuação a
partir da transposição às gerações que se seguem, dos modos culturais de ser,
estar e agir, necessários à convivência e ao ajustamento de um membro do seu
grupo ou sociedade”. Aqui, os fenómenos de aprendizagem social têm grande
relevância na construção sociocultural de um indivíduo, para que seja
propiciada a sua assimilação e acomodação, de forma adequada, ao meio
envolvente. É também uma forma de enquadrar a educação, não apenas dentro do
espaço físico escolar, mas também fora dele, no espaço comunitário de um
conjunto de indivíduos. Outro conceito já anunciado anteriormente é o de
desenvolvimento, que trata de promoção do potencial das pessoas, do aumento das
suas possibilidades e do desfrute da liberdade de viver a vida. Liberdade de
viver a vida transcende o conceito de liberdade de fazer uma escolha. É também
ter os meios necessários para que se possa prosseguir com essa escolha, em
condições de igualdade com o próximo. Isto é algo que, apesar de consagrado
constitucionalmente, não o é para todos (em igual proporção). Finalmente, a
definição de pedagogia. Com origem na Grécia antiga, é formada através da junção
das palavras paidós (criança) e agoge (condução),
sendo este último, na minha opinião, mais centrado dentro da “escola” pelos
seus objectivos claros e definidos ao longo das várias etapas de
desenvolvimento de um indivíduo. Mas será a “condução da criança” um processo
unicamente desempenhado pelo sistema educativo de um país? Obviamente que não.
Para o exemplificar, recorro a um exercício lógico sobre aprendizagem
linguística, que ocorre de maneira informal, fora do universo escolar. Não
menosprezando o papel da hereditariedade e do património genético, as crianças
entram no meio educativo já dotadas de capacidade para se expressarem verbalmente
na sua língua materna, graças a esse processo condutor. Isto é conseguido com
um papel extremamente importante da aprendizagem por imitação de um conjunto
lexical variado e algumas das regras de utilização desse sistema, através do
seu grupo de socialização primário. É um processo que será refinado dentro do
contexto educativo e onde serão também absorvidas outras formas de comunicação
(ex. linguagem escrita). Mas também é inegável a importância sociocultural
nesta aquisição pré-escolar, onde a “condução” é fácil de descortinar.
Tendo já explanado um conjunto de conceitos
importantes para o debate sobre um projecto educativo em igualdade, não apenas
de direito, mas também de acesso, passo a descrever o que, na minha
perspectiva, foi feito e falta fazer para melhorar o projecto educativo
português.
Neste aspecto, é inegável a observação de uma
demarcada evolução no nosso sistema. Esta evolução ocorreu tanto de forma
quantitativa como qualitativa. Ora, este processo tem que ser compreendido à
luz daquela que era a realidade portuguesa. Um sistema de ensino que não era
nem equitativo nem acessível a todos. Para contrariar este cenário, foi
extremamente importante a acção de um ex-ministro da educação, o professor
Veiga Simão, que teve o papel mais relevante na criação da Lei de Bases do
Sistema Educativo. Veiga Simão propôs-se, entre outras medidas, a estabelecer o
aumento da escolaridade obrigatória para nove anos, a formação e educação de
base de adultos e o aumento da oferta pública de ensino universitário. Mais
tarde, a Parque Escolar teve um papel determinante na renovação de escolas
públicas que se encontravam degradadas e desadaptadas à nova realidade do
ensino no nosso país. Sendo a escola a nossa segunda casa durante uma parte
substancial do nosso desenvolvimento, este processo de renovação dos edifícios
veio trazer maior qualidade para as nossas infra-estruturas. Passámos a dispor
de edifícios preparados para as novas realidades educativas, diminuindo as
características de terceiro mundo que eram apanágio de muitas das nossas
escolas (falta de equipamento gimnodesportivo, salas de aula sem isolamento
térmico, onde chovia quase tanto como no exterior, entre outros casos).
Passados estes anos, e após a evolução em termos de acesso e infra-estruturas
da oferta pública educativa, temos o dever de evoluir qualitativamente nos
programas educativos apresentados à população. Para isso, na minha opinião, a
oferta educativa necessita de ir mais longe no desenvolvimento humano global.
Deste modo, poderia contribuir um aumento na oferta educativa de
desenvolvimento emocional e sociocultural dos nossos discentes, bem como a
promoção de uma participação mais activa dos mesmos no seu projecto educativo
e, consequentemente, no seu desenvolvimento. Assim, poderíamos criar adolescentes
mais equilibrados emocionalmente, com maior capacidade de adaptação às
exigências que vão encontrar num futuro próximo, seja com a entrada no ensino
superior, seja no mercado de trabalho.
No caso dos docentes, seria importante promover ainda
mais a meritocracia e reforçar a constante formação daqueles que são
responsáveis pelo desenvolvimento dos alunos, evitando assim a estagnação e
promovendo a progressão na carreira, assente na contínua procura de novos
conhecimentos. Em termos de pessoal não docente, a escola pública encontra-se
ainda com recursos insuficientes, nomeadamente no que aos profissionais da
educação diz respeito. São eles quem, com a sua formação e conhecimento, podem
contribuir para uma escola mais justa e adaptada às realidades sociais.
Finalmente necessitamos de uma participação mais
activa da sociedade civil e dos dispositivos municipais na construção de um
novo modelo. São eles que conhecem a realidade com que os seus munícipes se
deparam com a entrada no mundo da oferta educativa e é com eles que urge
trabalhar de forma a propiciar redes de apoio para que nenhum aluno fique para
trás neste processo de desenvolvimento.
Mas, para que este diálogo seja possível, e como é
impossível dissociar a esfera política da oferta educativa, será necessário
eliminar o ruído e o clima de crispação entre as diversas partes envolvidas,
promovendo o diálogo, alheado de interesses próprios e enquadrado nos
interesses comuns, a formação contínua ao longo da vida.
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