A autêntica origem da palavra personalidade sugere uma
possível relação entre a representação dramática da personagem literária e as
tentativas do psicólogo para a descrever e compreender. A palavra tem origem em persona,
a mascara que os actores gregos e romanos usavam para indicar as personagens
que representavam. (Allport, 1937)
Na sua comédia, gregos e romanos tendiam a imaginar as
pessoas como tipos, tendo o seu teatro criado uma vasta galeria de personagens
( o herói generoso, a linda donzela, o criado astuto, entre outros). Ao longo
dos tempos tem havido muitas discussões sobre a concepção apropriada da
personagem teatral e literária. Alguns críticos defendiam que essas
caracterizações são necessariamente superficiais e bidimensionais e não correspondem
a um individuo. Na realidade, mesmo o amante mais apaixonado não é apenas um
apaixonado, tendo seguramente outros atributos mais.
Na minha opinião, em psicologia e nomeadamente na
avaliação psicológica, é um dado adquirido que para avaliar a personalidade de
um individuo é necessária uma compreensão de varias teorias que sobre ela se
debruçam, e que uma teoria apenas não serve para avaliar algo tão complexo e
multidisciplinar como o ser humano. Para tal, existem diferentes perspectivas
que focalizam um conjunto de factores que por si só não definem um individuo na
sua globalidade, mas em conjunto focalizam diferentes aspectos que influenciam
a construção da personalidade que se mantêm mais ou menos estável ao longo do
tempo.
O conhecimento que hoje, nas ciências sociais e
humanas damos como adquirido, foi sendo construído com base no estudo das
forças internas e externas que influenciam o comportamento, e os resultados que
deles obtemos (perspectiva cognitivo-comportamental); das motivações, desejos e
expectativas que criamos, e a forma como se tornam ou não realizáveis (teoria
psicodinâmica); a insistência em que as personalidades sejam enquadradas como
um todo e não derivando da soma das partes que a constituem (perspectiva
humanista); a diferenciação entre o que é universal na personalidade e
especifico da cultura (sociocultural) e a descrição e analise dos traços
subjacentes da personalidade (teoria dos traços), sendo que esta ultima servirá
como base para a construção do resto deste texto. Outro factor de extrema
importância para a avaliação da personalidade de um individuo é a relação que
se cria entre psicólogo e paciente, sem a qual o profissional da saúde não
poderá proceder a uma avaliação rigorosa, ficando-se por uma análise muito
subjectiva do individuo.
Voltando de novo à caracterização teatral e literária
da personalidade, muitos destes tipos ressurgiram em épocas posteriores e em
outros países como é disso exemplo o teatro cómico da Itália da Renascença,
a commedia dell´arte, que se orgulhava de possuir uma grande
oficina destas personagens, cada qual interpretada invariavelmente pelo mesmo
actor e sempre com a mascara que indicava que era. Transportando estes factores
para a actualidade, e numa lógica meramente dedutiva baseada na informação que
recolhemos diariamente na comunicação social, podemos fazer um exercício
similar observando que, ao invés destas personagens, na esfera das organizações
que orbitam o estado é a mascara que é invariavelmente a mesma, interpretada
por diferentes actores. É disso exemplo o facto de os actores
político-partidários do parlamento demonstrarem determinados traços ou
características quando são governo e outros quando são oposição, adoptando os
mesmos comportamentos sobre os quais eram críticos, quando mudam de papéis.
Demonstram com isso comportamentos egocêntricos, roçando o narcisismo que, não
servindo apenas os seus interesses individuais são importantes para a
manutenção dos interesses do grupo a que pertencem, não oferecendo nada, ou
muito pouco de substancial aos da população que os elegeu para defender o
desenvolvimento de politicas comuns.
Para finalizar, gostaria de deixar bem claro que, num
exercício desta natureza, corremos o risco de uma generalização que pode ser
perigosa. Tomando todos os agentes como “ farinha do mesmo saco” (utilizando
uma expressão popular) podemos estar a criar um estereótipo sobre uma classe da
população, que poderá levar ao preconceito. Não é esse o objectivo deste texto.
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