quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Persona

A autêntica origem da palavra personalidade sugere uma possível relação entre a representação dramática da personagem literária e as tentativas do psicólogo para a descrever e compreender. A palavra tem origem em persona, a mascara que os actores gregos e romanos usavam para indicar as personagens que representavam. (Allport, 1937)
Na sua comédia, gregos e romanos tendiam a imaginar as pessoas como tipos, tendo o seu teatro criado uma vasta galeria de personagens ( o herói generoso, a linda donzela, o criado astuto, entre outros). Ao longo dos tempos tem havido muitas discussões sobre a concepção apropriada da personagem teatral e literária. Alguns críticos defendiam que essas caracterizações são necessariamente superficiais e bidimensionais e não correspondem a um individuo. Na realidade, mesmo o amante mais apaixonado não é apenas um apaixonado, tendo seguramente outros atributos mais.
Na minha opinião, em psicologia e nomeadamente na avaliação psicológica, é um dado adquirido que para avaliar a personalidade de um individuo é necessária uma compreensão de varias teorias que sobre ela se debruçam, e que uma teoria apenas não serve para avaliar algo tão complexo e multidisciplinar como o ser humano. Para tal, existem diferentes perspectivas que focalizam um conjunto de factores que por si só não definem um individuo na sua globalidade, mas em conjunto focalizam diferentes aspectos que influenciam a construção da personalidade que se mantêm mais ou menos estável ao longo do tempo.
O conhecimento que hoje, nas ciências sociais e humanas damos como adquirido, foi sendo construído com base no estudo das forças internas e externas que influenciam o comportamento, e os resultados que deles obtemos (perspectiva cognitivo-comportamental); das motivações, desejos e expectativas que criamos, e a forma como se tornam ou não realizáveis (teoria psicodinâmica); a insistência em que as personalidades sejam enquadradas como um todo e não derivando da soma das partes que a constituem (perspectiva humanista); a diferenciação entre o que é universal na personalidade e especifico da cultura (sociocultural) e a descrição e analise dos traços subjacentes da personalidade (teoria dos traços), sendo que esta ultima servirá como base para a construção do resto deste texto. Outro factor de extrema importância para a avaliação da personalidade de um individuo é a relação que se cria entre psicólogo e paciente, sem a qual o profissional da saúde não poderá proceder a uma avaliação rigorosa, ficando-se por uma análise muito subjectiva do individuo.
Voltando de novo à caracterização teatral e literária da personalidade, muitos destes tipos ressurgiram em épocas posteriores e em outros países como é disso exemplo o teatro cómico da Itália da Renascença, a commedia dell´arte, que se orgulhava de possuir uma grande oficina destas personagens, cada qual interpretada invariavelmente pelo mesmo actor e sempre com a mascara que indicava que era. Transportando estes factores para a actualidade, e numa lógica meramente dedutiva baseada na informação que recolhemos diariamente na comunicação social, podemos fazer um exercício similar observando que, ao invés destas personagens, na esfera das organizações que orbitam o estado é a mascara que é invariavelmente a mesma, interpretada por diferentes actores. É disso exemplo o facto de os actores político-partidários do parlamento demonstrarem determinados traços ou características quando são governo e outros quando são oposição, adoptando os mesmos comportamentos sobre os quais eram críticos, quando mudam de papéis. Demonstram com isso comportamentos egocêntricos, roçando o narcisismo que, não servindo apenas os seus interesses individuais são importantes para a manutenção dos interesses do grupo a que pertencem, não oferecendo nada, ou muito pouco de substancial aos da população que os elegeu para defender o desenvolvimento de politicas comuns.

Para finalizar, gostaria de deixar bem claro que, num exercício desta natureza, corremos o risco de uma generalização que pode ser perigosa. Tomando todos os agentes como “ farinha do mesmo saco” (utilizando uma expressão popular) podemos estar a criar um estereótipo sobre uma classe da população, que poderá levar ao preconceito. Não é esse o objectivo deste texto.

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